Visão noturna – Muzambinho/MG

MINHA CIDADE

Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,curtas,
indecisas,entrando,saindo uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher que ficou velha,
esquecida,nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias, fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas, sobrados, telhados e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro verde de avencas
onde se debruça um antigo jasmineiro, cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas encostadas cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada dessas árvores,sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.Renitentes.Indomáveis.
Cortadas.Maltratadas.Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,enflorados,lascados a machado,
lanhados, lacerados.Queimados pelo fogo.
Pastados.Calcinados e renascidos.
Minha vida,meus sentidos,minha estética,
todas as virações de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

©CORA CORALINA
In Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, 1965

Foto de Cleusa Ely Soares.

Cleusa Ely

O portal muzambinhense de recordações ilustrativas, nos remetendo ao saudosismo e sentimentalismo. Sou apaixonada por fotografias antigas e essa particularidade me fez criar a página Sou mais Muzambinho. Desde fevereiro de 2012, faço do meu hobby, uma realização pessoal. Essa página não seria tão ilustrativa sem a ajuda de meus colaboradores. Chego à ser cansativa nos pedidos às pessoas que possuem um acervo interessante, mas é na insistência que consigo fotos fabulosas e de valor inestimável. As fotos atuais são feitas por mim, para um comparativo de lugares e ângulos iguais às fotos antigas. Tenho orgulho de minha cidade e quero que suas belezas naturais sejam compartilhadas com todos nossos conterrâneos. Obrigada à todos por fazerem da minha realização a sua contemplação.

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